A nossa vocação

A nossa vocação

Novembro 8, 2020 Não Por Clarissas

08Assim começa o Testamento:

Em nome do Senhor! (cfr. Col 3,17) Amém!

Entre todos os benefícios que temos recebido e diariamente recebemos da generosidade do Pai das misericórdias (cfr. 2Cor 1,3) e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida. Por isso diz o Apóstolo: “Reconhece a tua vocação” (cf. 1Cor 1,26).

A Palavra-chave deste início do Testamento é Vocação. Entre todas as dádivas de Deus, a vocação assume um papel preponderante. É notável que depois de quarenta e dois anos no claustro, Clara manifeste esta alegria, esta gratidão pela sua vocação tão específica. Notável também porque Clara não teve um paradigma de vida contemplativa Franciscana. Na descoberta diária deste caminho tornou-se

ela mesma o paradigma de muitas outras Irmãs. Foi ela a forma e a regra de vida para as Irmãs da sua Comunidade e das Comunidades que seguiram a sua espiritualidade. Deus é o único benfeitor, a origem de toda a vida e de todos os dons. Quando Clara se refere a Deus diz que Ele é “o Pai das misericórdias”, expressão tão cara a S. Paulo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação” (2 Cor 1,3), e que Clara também usa noutros contextos.

Neste parágrafo Clara quer que as Irmãs tomem consciência da especificidade do seu chamamento e da responsabilidade que é servir o Senhor, sublinhando de novo as suas palavras com outra expressão Paulina: “Conhece a tua vocação!”

E se Deus é o “pai das Misericórdias, de quem tudo procede, o Filho de Deus é o caminho para alcançar o Pai: “ O Filho de Deus fez-se nosso caminho (cf. Jo 14,6; 1Tm 4,12), tal como no-lo mostrou o bem- aventurado Pai Francisco, seu amante e seguidor, como nos mostrou e ensinou por palavras e exemplo.”

(TestCl 5).

 

Clara quer que as suas Irmãs reconheçam a sua vocação no próprio Jesus. Jesus é a nossa vocação. Para ela a vocação não é apenas uma vocação, uma chamada à vida religiosa: para Clara a vocação é uma Pessoa é Jesus, o Cristo do Evangelho. E isto é válido não só para as Clarissas, mas também para todos os cristãos. Logo, vem a referência a Francisco. Se o caminho é Jesus, Francisco é aquele que no-lo

mostra. Como João Baptista aponta “o cordeiro de Deus” aos discípulos, Francisco ensina o caminho a Clara e às suas Irmãs. Clara nunca coloca Francisco no lugar de Jesus mas sabe que o caminho lhe foi revelado por Francisco, ele foi o meio pelo qual Cristo se revelou a Clara a qual vê em Francisco o “verdadeiro amante e imitador de Jesus”.

Clara não confunde as coisas, e isto é magistralmente demonstrado e visualizado com uma precisão admirável por Fabrízio Costa no filme “Chiara e Francesco” quando, ainda no genérico, Francisco caminha deixando marcas dos pés no chão; Clara caminha após ele colocando os pés sobre as mesmas marcas. Francisco volta-se para ela e pergunta: – Estás a seguir os meus passos?” E ela responde:

– Não! Sigo outros mais profundos!

Clara é sempre grata a Deus e a Francisco: “Devemos considerar, irmãs caríssimas, os imensos benefícios que o Senhor nos concedeu, principalmente os que por intermédio do nosso bem-aventurado Pai S. Francisco nos prodigalizou, não só depois da nossa conversão, mas mesmo quando ainda estávamos nas vaidades do século.” (TestCla 6-8)

Embora Clara se designe a si mesma a “Plantazinha de S. Francisco”, ela reconhece que a sua vocação é iniciativa de Deus, o princípio da sua conversão, da sua mudança de vida deve-se à misericórdia do Altíssimo que se dignou iluminar o seu coração. Quem semeou a vocação no coração de Francisco, foi O Mesmo que a semeou no coração de Clara: ambos receberam do Pai Celestial a semente da vocação evangélica. Clara começa a viver em penitência por causa da semente que Deus quis fazer florescer na

sua vida. Francisco foi o suporte da “Plantazinha” que Deus fez florir no Vale de Espoleto.

São Francisco é a testemunha da Profissão religiosa de Santa Clara. Foi perante ele que clara e algumas Irmãs, prometeram observar o Santo Evangelho. A promessa de observar a santa pobreza teria sido mais tarde confirmada pela Igreja mas, no começo, Francisco foi a testemunha: “E para maior certeza, a mfim de que mais tarde não nos desviássemos da promessa, tive a preocupação – diz Clara – de adquirir

por meio de privilégios do Papa Inocêncio, sob cujo pontificado começamos, e dos seus sucessores, a confirmação desta Santa Pobreza” (TestClara42). Essa promessa feita a Deus e ao Pai Francisco é recordada por Santa Clara e repetida diversas vezes nos seus escritos e no seu Testamento.