Pobreza como Forma de Vida

Pobreza como Forma de Vida

Novembro 7, 2020 0 Por Clarissas

Assim começa o “Testamento de Santa Clara:

E eu, Clara, indigna serva de Cristo e das irmãs pobres de São Damião e plantazinha do santo Pai, considerando, com as outras minhas irmãs, a sublimidade da nossa profissão e o mandato de tão grande Pai, e ao mesmo tempo a fragilidade das nossas irmãs — fragilidade que nós mesmas temíamos aquando da morte do nosso Pai Francisco que, depois de Deus, era a nossa coluna, nossa única consolação ( 1 Tim 3, 14) e nossa fortaleza — frequentemente renovamos a nossa adesão voluntária à nossa senhora, a santíssima pobreza, a fim de que depois da minha morte, as irmãs, tanto as presentes como as futuras, de nenhuma maneira dela se apartem.”(TestCl 37-39)

Clara não vive só, vive numa Comunidade de Irmãs e vive para elas. Ela é a serva de Cristo, serva das Irmãs, Plantazinha do Seráfico Pai. Cristo, as Irmãs e Francisco são os três termos em relação aos quais Clara se define, os horizontes em direção aos quais se move. Cristo está sempre em primeiro lugar e depois vêm as Irmãs. 

O olhar de Clara é um olhar para a frente, para o futuro. Ela sabe que virão outras Irmãs depois dela. Ela tem uma consciência muito clara do seu papel na história das Irmãs de S. Damião: “as presentes e futuras”. Ela é a Fundadora, ainda que a referência seja Francisco, naquele preciso momento é ela que assume a fundação. Francisco havia falecido há aproximadamente vinte e sete anos e, agora, era o momento de cuidar do futuro da sua Família Religiosa. Clara sabe que o fim da sua vida se aproxima e pensa em tudo, com uma “urgência materna”, apesar de se sentir sempre serva-servidora das suas Irmãs, teme as suas fragilidades e preocupa-se com a melhor forma de as apoiar para que a nenhuma falte a força para perseverar no caminho da pobreza. Exatamente por isso,  à falta da aprovação da Regra, ela escreve o seu Testamento.

Em relação a Francisco Clara continua a definir-se como a “Plantazinha”. Francisco foi o jardineiro que a ajudou a crescer na vida do Espírito, não apenas a Clara mas em relação a toda a Comunidade de S. Damião. Para todas elas o Santo Pai é “a nossa coluna e único consolo depois de Deus”.

Paulo define a Igreja como “coluna e fundamento da verdade” (1Tim 3,15), Clara referindo estas palavras a Francisco realça a sua presença particularmente importante junto de Deus. Para elas, Francisco é, de certa forma, a presença concreta da paternidade de Deus nas suas vidas.

“Frequentemente renovamos a nossa adesão voluntária à nossa senhora, a santíssima pobreza, a fim de que depois da minha morte, as irmãs, tanto as presentes como as futuras, de nenhuma maneira dela se apartem.” (TestCl. 39)

O compromisso de Clara é profundamente livre, mas é também uma obrigação. De facto o compromisso do voto de obediência empenha toda a vida, a sua mas também a da comunidade que nunca deve apartar-se deste voto à “santíssima pobreza”.

Já no número 42 do Testamento Clara refere: “para maior garantia, solicitei ao Senhor Papa Inocêncio, sob cujo pontificado começámos, e a todos os seus sucessores, que confirmassem com os seus privilégios (1) a nossa profissão da santíssima pobreza,  para que em tempo algum, e de nenhuma maneira dela nos desviássemos.” TestCl. 42 -43) Clara refere o “Privilégio da pobreza” que durante toda a sua vida foi realmente importante, foi a única garantia de aprovação por parte da Igreja romana da sua “forma de vida”. Foi este privilégio que lhe permitiu viver no seio da Igreja, a altíssima pobreza do Filho de Deus. Para Clara, a união com a Ordem e com a Igreja, conduzem à observância da pobreza e não podem ser pretexto para um afastamento. Por isso continua o Testamento: “Eis porque, de joelhos em terra e prostrada de corpo e alma, recomendo todas as minhas irmãs, presentes e futuras, à Santa Madre Igreja romana, ao Sumo Pontífice e, sobretudo ao senhor cardeal encarregado da Ordem dos Frades Menores e da nossa, a fim de que, por amor daquele Senhor que foi reclinado pobre no presépio, pobre viveu no mundo e nu ficou sobre o patíbulo, se dignem conduzir o pequenino rebanho que, na sua Igreja santa, o Senhor e Pai gerou com a palavra e o exemplo do bem-aventurado Pai Francisco, no seguimento da pobreza e humildade do seu dilecto Filho e da gloriosa Virgem sua mãe, e o levem a observar sempre a santa pobreza que prometemos a Deus e a nosso beatíssimo Pai Francisco e finalmente hajam por bem ajudá-lo e na dita pobreza para sempre conservá-lo.” (TestCl. 44-47)

Partindo das palavras de Santa Clara compreendemos a pobreza não apenas como uma virtude ou o esforço ascético para a conseguir, mas como sendo uma pessoa, Cristo, O Filho dilecto de Deus! Clara não quer dar lugar a divagações ou enganos: o Cristo pobre é Aquele que ela quer seguir e quer que todas as suas Irmãs o compreendam, como verdadeiras filhas espirituais e herdeiras do pobre de Assis. Ao confiar as suas Irmãs à Igreja, ela confia-as também aos cuidados da Ordem Franciscana:

O Senhor deu-nos o beatíssimo Pai Francisco como fundador, plantador e nosso assistente no serviço de Deus e em tudo o que a Deus e a ele, nosso Pai, prometemos; durante a vida sempre se mostrou solícito em nos cultivar e proteger, a nós, sua plantazinha. Do mesmo modo recomendo as minhas irmãs presentes e futuras ao sucessor do nosso bem-aventurado Pai Francisco e a toda a sua Ordem para que nos ajudem a progredir cada vez mais no serviço de Deus e a observar cada vez melhor, sobre tudo a santíssima pobreza.” (Test.Cl 48-51).

Se para Clara a pobreza devia ser sempre observada estritamente, ela é muito realista na utilização dos bens materiais e, prevendo sabiamente, que as coisas poderiam mudar após a sua morte, sem alimentar falsas ilusões, permite a possessão de um pequeno terreno para isolamento do mesmo Mosteiro. Apesar de uma vida inteira a defender a Santa pobreza, ela admite tranquilamente esta pequena propriedade, vigiando contudo para que não se passe dos limites permitidos, pois o risco é sempre real.

“E, tanto a irmã que me suceder no cargo como qualquer outra irmã, de maneira nenhuma adquiram ou recebam terrenos à volta do supradito lugar, a não ser o absolutamente necessário para uma horta onde se cultivem alguns legumes. Se para salvaguardar a dignidade e o isolamento do mosteiro se achar conveniente em determinada altura, adquirir terreno fora da horta, não se adquira mais do que o absolutamente necessário. E de maneira nenhuma se cultive ou se semeie este terreno, antes se deixe baldio e inculto. (TestCl. 53-55)