Testemunho Irmã Cristina Isabel

Testemunho Irmã Cristina Isabel

Junho 20, 2021 Não Por Clarissas

Chamo-me Irmã Cristina Isabel. Sou natural da Paróquia do Milharado no Concelho de Mafra.

Desde a mais tenra idade fui educada na fé cristã dos meus pais, participando regularmente na Eucaristia. Fiz o percurso catequético normal e, mais tarde, entrei no Movimento Neo-Catecumenal que me ajudou a crescer espiritualmente. Foi desta forma simples que Deus se manifestou na minha vida.

A minha mãe com o seu testemunho de fé e fidelidade a Deus foi, com certeza, a pessoa que mais influiu na aceitação de Deus na minha vida. Nunca me influenciou para a Vida Religiosa, mas aceitou como uma graça o dom da minha vocação.

A descoberta da minha vocação surgiu a partir de um encontro. Havia dentro de mim, há muito, uma inquietação vocacional e quis convencer-me que o meu lugar era na vida activa. Repudiava a ideia da vida contemplativa, até que um dia recebi o convite a fazer um retiro neste Mosteiro. Aceitei apenas para descartar esta possibilidade pensando: “Vou, não vou gostar, e descarto este assunto!”

Mas Deus sabe onde encontrar-nos e, posso dizer que a certeza do chamamento à vida contemplativa, surgiu de um encontro num momento de oração diante do Santíssimo Sacramento, aonde me questionei seriamente sobre o que Deus queria de mim e o que devia fazer para cumprir a sua vontade e ser feliz. Ali, tive a certeza de que Ele me queria numa entrega radical. A decisão de ser clarissa surge precisamente da Eucaristia. Sabia que Deus me queria para O adorar, amar e desagravar por todos aqueles que “não crêem, não adoram, não esperam e não O amam”.

Para a minha Família e amigos foi uma enorme surpresa. Ninguém contava com esta notícia. Eu estava integrada no mundo laboral, tinha os meus projetos e metas pessoais e profissionais, o meu carro, a minha vida toda organizadinha e, de repente tudo mudou… mas todos aceitaram, graças a Deus.

O momento mais difícil neste caminho foi “dar o salto” deixando a Família, especialmente o irmãozinho pequeno, os amigos, o “conforto” de uma vida em que podia ir para onde quisesse sem ter que dar satisfações a ninguém, os hábitos do dia-a-dia, as rotinas, para abraçar um projeto novo, diferente e desconhecido.

O momento mais feliz é o poder dizer sim a Deus com uma enorme liberdade de espírito e de coração, deixando-me conduzir pelo Espírito Santo “até onde Ele me quiser levar”.

A palavra com que eu definiria a minha comunidade é “ternura”. Há uma grande ternura na fraternidade que constituímos como a quis Santa Clara ao dizer “se uma mãe ama e nutre a sua filha carnal, quanto mais diligentemente deve uma irmã amar e nutrir a sua irmã espiritual?”

Eu sou neste momento uma Noviça em formação, no segundo ano de Noviciado, e sinto que a comunidade é um lugar de misericórdia e acolhimento, tanto na formação como na vida quotidiana e na correção fraterna.

O nosso dia-a-dia é muito simples, vivido na oração, no trabalho e na comunhão de vida em todos os seus aspetos. A nossa consagração é sempre na comunidade. Somos uma comunidade de irmãs em que procuramos caminhar juntas com os limites, e com toda a grandeza e riqueza de cada uma.

Todo o ambiente do Mosteiro é tranquilizante, criativo proporcionando este encontro constante com Deus através do silêncio que fala, e também do trabalho que envolve o ambiente. Vivemos num meio em que a paisagem é ainda predominantemente verde, cultivamos os produtos hortícolas que consumimos e algumas frutas, embaladas pela harmoniosa melodia das aves desde o despertar do dia. Com toda a criação “louvamos o Altíssimo Omnipotente e bom Senhor!”

A vertente do carisma que mais me entusiasma e desafia é a vivência da pobreza. Enquanto o mundo procura riquezas, nós buscamos a pobreza que não é simples recusa das coisas materiais, mas é identificação com Cristo “pobre e crucificado” e com Sua mãe, “a Senhora pobrezinha”, e é também comunhão com os pobres, nossos Irmãos, que não têm o indispensável para viver com dignidade.

Hoje a Vida consagrada é um sinal de contradição para o mundo, é seguir em contramão; pois enquanto o mundo busca o ruído nós procuramos o silêncio, enquanto o mundo procura progredir economicamente, nós buscamos a pobreza, enquanto o egoísmo e a autossuficiência imperam no mundo, procuramos a partilha fraterna e a obediência por amor e, se o mundo busca a alegria e o prazer, nós vivemos a alegria do amor de Deus.

Aos jovens de hoje diria para avançarem sem medo, se Deus vos falar ao coração, pois Ele nunca falha, nem engana. O Senhor tem uma missão para cada pessoa, única. Só na concretização dessa vocação pessoal, seremos realmente felizes.

O silêncio assume na nossa vida uma importância primordial pois é nele que ouvimos Deus a falar-nos “ao coração”, é nele que nos encontramos connosco e com a realidade da outra pessoa, num respeito profundo pela singularidade da mesma. O silêncio é o deserto onde Deus sussurra com voz suave e bem timbrada.

A todas as pessoas que leem este jornal digo que o mundo é belo, mas Deus é mais. A felicidade da realização pessoal é maravilhosa, mas a felicidade de viver com Deus, e para Ele, é incomparavelmente mais profunda e libertadora. Não deixem Deus sozinho no mundo nem deixem as vossas vidas sem Deus.

 

 

Irmã Cristina Isabel Alexandre Quirino